domingo, 7 de novembro de 2010

Um homem que vinha caminhando pela rua, sem perceber nada a sua volta, de repente repara uma nuvem comprida no céu. Ele está atrasado para entrega alguns papéis em um escritório do outro lado da cidade. Mas aquela nuvem o fez esquecer tudo o que tinha pra fazer naquele dia.
Ele decidiu sentar num banquinho e observar aquela nuvem. Branquinha, comprida, intrigante. Aos olhos das pessoas que também passavam por ali, aquela era apenas mais uma nuvem. Para ele era a expressão de algo que residia em seu interior.
O homem ficou por ali até anoitecer. Quando a escuridão do céu noturno levou o último pedacinho visível daquela nuvem insistente, ele levantou do banco e foi pra casa.
Foi pra casa, mas não conseguia parar de pensar na nuvem. Ele precisava alcançá-la, tê-la para si; para sempre. Pensou em comprar um balão, pensou em deixar o emprego, pensou em se matar.
No dia seguinte ele saiu, determinado a procurar a nuvem naquele mesmo lugar, mas o que ele mais temia aconteceu. O céu do dia seguinte era totalmente nublado. Sua nuvem perde-se no meio das outras. Na verdade ele nem sabia se ela estava mesmo por ali.
Se passarmos qualquer dia ali pela orla de copacabana ainda podemos vê-lo, sentado ou deitado no banquinho, olhos fixos no céu, procurando aquela nuvem comprida, branquinha, única.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Próxima vida

Por mais sozinha que ela estivesse, ainda existia a capacidade de suspirar, pensar no futuro. E ela suspirava. Aquilo era necessário para seguir em frente, superar madrugadas, esmurrar teclados a procura de textos que suprissem o seu vazio.
Ela nunca sabia direito onde estava indo. Entregava-se ao sabor do destino esperando por uma mão que a puxasse bruscamente e a tirasse do escuro.
Ela deixou a vida passar, os amores passarem, o sabor passar. Ela esperou o perfeito, baseou suas decisões em orgulho e escondeu os sentimentos mais profundos que sentia.
O tempo pra ela era um palhaço, brincando de envelhecer a gente. Poucas vezes ela pensava no peso de suas costas, nas rugas no seu rosto. Ela esperava pacientemente pela próxima cena. Esperava sem saber que não tinha mais o que esperar.
No seu último suspiro pensou nela. Aquela. Mil dúvidas, incertezas, desencontros. Truques de uma mente que não quis admitir, voltar atrás.
Na próxima vida quem sabe um reencontro.