terça-feira, 8 de abril de 2014

Não precisamos da pesquisa do IPEA


                Muita gente mostrou-se aliviada após a revelação de que alguns dados da pesquisa divulgada pelo IPEA não eram ‘exatamente exatos’. Este sentimento de alívio traz a reboque o descredito com relação às manifestações que ocorreram nas redes sociais contra o estupro e contra a ‘culpabilização’ das vítimas.
                Nós não precisamos da pesquisa do IPEA e digo isto porque sou mulher e percebo a realidade ao meu redor. Nós vivemos sim em um país demasiadamente machista e não adianta querer empurrar a poeira para baixo do tapete. Não adianta fingir que as mulheres não são 'encoxadas' no transporte público, assediadas na rua e inibidas de sua liberdade. Não adianta fingir que nós mulheres sempre temos que provar a todo momento que somos capazes. Tudo isto é tão evidente, mas é feio e a sociedade que esconder e fingir que vivemos em um mundo igualitário e bonzinho.
As pessoas que se manifestaram contra todo esse machismo e essa mania feia de colocar a culpa na vítima da violência não precisam da pesquisa do IPEA para fazerem suas vozes ecoarem por onde elas quiserem. Afinal, a voz da mulher, a voz das vítimas, já sofre um apagamento secular. Chega de ficar calada para evitar conflito ou ficar em uma posição esperada e naturalizada para agradar os olhos da sociedade machista.

Segue o link para um vídeo feito na Índia sobre o mesmo assunto (pra ver como não é só no Brasil): It's your fault (É sua culpa)

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Let it be

no escuro vou lembrando de tudo
e coloco Beatles
um aperto estranho
Let it be...

domingo, 10 de julho de 2011

Sina

Pode ser que lhe tenham dedicado poemas
Mas não todos

Talvez pense que muito esperaram
Mas nem tantas horas

Alegraram-se com sua atenção
de fato!
Mas não com os segundos

É possível que tenham visto encanto na tua boca
Mas não sem cessar

Acredito que sonharam
Porém, logo esqueceram

Até mesmo te tocaram,
mas nunca amaram
nunca amaram essa sina

sábado, 2 de julho de 2011

Minúcias

Em branco
O papel reclama de sua brancura
A caneta treme por entre os dedos
escapam as palavras

O tempo
que passa sem dizer para onde
já se sabe bem onde vai
leva e trás
sem sentido e sem direção

Quanta minúcia no meu pensamento
apegando-me aos detalhes
segurando o que nem tem alça

Deixa ir
solta por aí
as minúcias que não te permitem sorrir

domingo, 29 de maio de 2011

Posso tentar esquecer
e deixar de sonhar
Perder a escência
não mais esperar

Posso até ler livros
romancear
esquecer da vida

sua mão segura a minha
fecho os olhos pra sonhar
se abrir só por ventura
corro o risco de chorar

aperto forte o espaço vazio entre os dedos
corro o risco de chorar
sinto o perfume e busco a flor
sem nada encontrar

domingo, 7 de novembro de 2010

Um homem que vinha caminhando pela rua, sem perceber nada a sua volta, de repente repara uma nuvem comprida no céu. Ele está atrasado para entrega alguns papéis em um escritório do outro lado da cidade. Mas aquela nuvem o fez esquecer tudo o que tinha pra fazer naquele dia.
Ele decidiu sentar num banquinho e observar aquela nuvem. Branquinha, comprida, intrigante. Aos olhos das pessoas que também passavam por ali, aquela era apenas mais uma nuvem. Para ele era a expressão de algo que residia em seu interior.
O homem ficou por ali até anoitecer. Quando a escuridão do céu noturno levou o último pedacinho visível daquela nuvem insistente, ele levantou do banco e foi pra casa.
Foi pra casa, mas não conseguia parar de pensar na nuvem. Ele precisava alcançá-la, tê-la para si; para sempre. Pensou em comprar um balão, pensou em deixar o emprego, pensou em se matar.
No dia seguinte ele saiu, determinado a procurar a nuvem naquele mesmo lugar, mas o que ele mais temia aconteceu. O céu do dia seguinte era totalmente nublado. Sua nuvem perde-se no meio das outras. Na verdade ele nem sabia se ela estava mesmo por ali.
Se passarmos qualquer dia ali pela orla de copacabana ainda podemos vê-lo, sentado ou deitado no banquinho, olhos fixos no céu, procurando aquela nuvem comprida, branquinha, única.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Próxima vida

Por mais sozinha que ela estivesse, ainda existia a capacidade de suspirar, pensar no futuro. E ela suspirava. Aquilo era necessário para seguir em frente, superar madrugadas, esmurrar teclados a procura de textos que suprissem o seu vazio.
Ela nunca sabia direito onde estava indo. Entregava-se ao sabor do destino esperando por uma mão que a puxasse bruscamente e a tirasse do escuro.
Ela deixou a vida passar, os amores passarem, o sabor passar. Ela esperou o perfeito, baseou suas decisões em orgulho e escondeu os sentimentos mais profundos que sentia.
O tempo pra ela era um palhaço, brincando de envelhecer a gente. Poucas vezes ela pensava no peso de suas costas, nas rugas no seu rosto. Ela esperava pacientemente pela próxima cena. Esperava sem saber que não tinha mais o que esperar.
No seu último suspiro pensou nela. Aquela. Mil dúvidas, incertezas, desencontros. Truques de uma mente que não quis admitir, voltar atrás.
Na próxima vida quem sabe um reencontro.